Crónica de Uma Viagem Anunciada | Cultural Heritage Project

Viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo.
Gustave Flaubert

 

A apresentação da candidatura, no âmbito do Projeto Erasmus+, por parte do Colégio de São Gonçalo de Amarante – Escola Católica, veio demonstrar, mais uma vez, a vontade em acelerar novas práticas educativas que otimizem a formação e as aprendizagens dos nossos jovens alunos, permitindo-lhes oportunidades de intercâmbio, sempre na perspetiva de formar para os valores europeus, para a sua cultura, identidade e de lhes proporcionar melhores oportunidades.

Formados os grupos para as duas mobilidades, Hungria e Itália, e com a resiliência que tão bem nos carateriza, tão necessária em contexto de pandemia, ainda em setembro agendaram-se as atividades, pensaram-se todos os pormenores e agilizaram-se as reuniões e videoconferências necessárias para ultimar a viagem. Assim, os quinze alunos selecionados para a primeira mobilidade, com destino a Budapeste, acompanhados pelos docentes Catarina Costa, Rosa Maria Fonseca e Rui Canossa, deslocaram-se de vinte e sete de novembro a quatro de dezembro de 2021, para a cidade conhecida como “A Pérola do Danúbio”, onde, em valsa elegante e ritmada, aquele rio imenso beija as margens de Buda e de Peste, outrora duas grandes cidades magiares independentes, mas que hoje se erguem, unidas, para dar forma a uma das capitais europeias mais singulares e elegantes de que nos podemos orgulhar, como genuínos europeus que somos. Eram grandes as expectativas de todos, como bem se adivinha.

Os alunos e professores da Berzsenyi Dániel Gimnázium, bem como os Encarregados de Educação, aguardavam-nos com simpatia no olhar, no aeroporto de Budapeste, e com um friozinho na barriga, cortou-se o cordão umbilical e os nossos alunos deslocaram-se para as casas das famílias de acolhimento, onde se instalaram e deram início ao tão esperado contacto com esta nova realidade que os iria desafiar durante uma semana. Uma serigrafia produzida a partir de desenhos captados, em primeira impressão, pelo olhar dos nossos alunos do Curso de Design, foi a singela oferta com a qual fizemos questão de agraciar a tão generosa hospitalidade das diferentes famílias húngaras. As românticas paisagens amarantinas figuram, agora, naquelas casas longínquas, despertando nas suas gentes a vontade de nos visitar.

O domingo foi de descanso, mas os professores foram agradavelmente surpreendidos com um convite inesperado para visitar, no Museum of Fine Arts, a extraordinária exposição “De Cézanne a Malevitch”. Inesquecível, pelo valor e prazer que as fruições daquelas obras de arte nos proporcionaram, mas também gratos pela excelente companhia das colegas húngaras, Anita Klein, Tímea Lászlo, Mária Kórmos e Adrienne Edvi. Que belas anfitriãs.

Na segunda-feira, deu-se início ao programa desenhado especialmente para nós, com uma pequena cerimónia de receção e boas-vindas, com a presença da Direção da escola e da Coordenadora do Projeto, Anita Klein, onde a Professora Catarina Costa teve a oportunidade de agradecer a simpatia com que nos acolheram e entregar pequenas lembranças alusivas à nossa identidade e cultura amarantinas, com a oferta de um belo catálogo bilingue do Museu Amadeo de Souza-Cardoso, de um roteiro natural do concelho e de uma serigrafia alusiva à união dos povos, da autoria de Júlio Cunha, obras gentilmente oferecidas pelo Departamento de Cultura da Câmara Municipal de Amarante. A Dolmen também fez questão de oferecer um exemplar da edição do roteiro Douro Verde, com magníficas fotografias que bem ilustram a riqueza patrimonial e paisagística com que a região do Tâmega e Sousa foi soberbamente bafejada. O nosso muito obrigado às Instituições referidas.

As atividades, magníficas, pensadas e preparadas pelos alunos e professores húngaros, levantaram véus e cortinas e desvendaram a cidade, com os seus cheiros, segredos, História e estórias de alegria, de sucesso, de renovação e de vitórias… mas também de medo e de horror, de segregação e perseguições que não queremos, não podemos nem devemos esquecer: primeiro, com a Segunda Guerra Mundial, depois sob o domínio soviético,  imposto pela dura Cortina de Ferro, denunciada por Churchill, e só libertados após a queda do Muro de Berlim, a 9 de novembro de 1989. Hosok Tér, Andrassy Ut, a Basílica de Santo Estevão, o seu famoso Mercado de Natal, distinguido como o melhor do Mundo, o Parlamento, os Museus, Buda e a Igreja de S. Mathias, o Bairro Judeu e a Sinagoga, nada ficou esquecido. Os diálogos e apresentações, num inglês fluente, aproximavam portugueses e húngaros, e o interesse era constante, quer pelo património edificado, quer pelos museus e galerias de arte, quer pelas explicações mais detalhadas da guia, no caso da visita à sinagoga e ao bairro judeu. Com orgulho, constatámos aqui a homenagem a diplomatas que contribuíram com a sua ação para salvar vidas, entre os quais figuravam dois portugueses, Carlos de Lys Teixeira Branquinho e Sampayo Garrido.

As atividades na escola, muito interessantes, meticulosamente preparadas por todos, sempre à volta do património, da arte e da cultura húngaras marcaram!… e a saudade já apertava quando, na quinta-feira, cereja no topo do bolo, foi servido para todos um belíssimo jantar de confraternização e despedida, à mistura com danças tradicionais da Hungria e outras, convenhamos, mais modernas e tão ao gosto juvenil. Sementes de amizade, laços fraternos para a vida,  eis o espírito Erasmus aqui concretizado. Tão bom.

Sair da zona de conforto, perceber o quotidiano dos  jovens numa escola da cosmopolita capital húngara, conhecer a sua cultura, o seu património, a sua gastronomia, a sua música, …tudo foi possível e tudo correu bem. E tudo porque na Princesa do Tâmega, São Gonçalo velava… na Pérola do Danúbio, Santo Estevão acolheu as nossas preces, na missa de Domingo. Pedi-lhe, pedimos-lhe que chegássemos bem. E chegámos. Uma, mais tarde que todos os outros, mas bem e feliz. À Direção do Colégio de São Gonçalo, em particular, pois revelou-se inexcedível pela presença, atenção e acompanhamento que dedicou a todos, aos restantes envolvidos no projeto, Pais, Alunos e Professores, um bem-haja muito especial.

 

Fiquem com alguns dos  testemunhos dos alunos participantes:

A viagem a Budapeste excedeu as minhas expectativas, pois não esperava ser presenteada com uma receção tão calorosa, numeras atividades tão ricas e interessantes, e uma tão grande disponibilidade por parte das famílias, alunos e professores. A viagem estava muitíssimo bem organizada no que diz respeito à situação pandémica que vivemos e o grupo organizador era muito dinâmico e teve sempre um eficiente plano B para todos os constrangimentos que surgiram. Budapeste é uma cidade lindíssima e obviamente que ter a oportunidade de a conhecer tão profundamente foi um aspeto positivo. Gostava também de salientar que tive a oportunidade de conhecer uma família amorosa e muito acolhedora. Todas as viagens são extremamente enriquecedoras, são como vacinas de cultura, e esta relativamente a esse parâmetro não foi diferente mas para além desta vacina de cultura tivemos a oportunidade de viver durante uma semana numa casa e família diferente. Fomos postos à prova, fora da zona de conforto, o que foi extremamente útil para aprendermos a moldar-nos consoante os obstáculos que encontramos no caminho.  Esta experiência foi importantíssima para o nosso futuro, pois ensinou-nos a estar recetivos a diferentes hábitos, rotinas e até a gastronomia  diferentes. O facto de viver em casa de uma  família húngara ajudou-me imenso a incorporar o espírito da viagem.
Beatriz Bastos, 12.º Ciências e Tecnologias

As expectativas que eu tinha em relação ao projeto Erasmus+ foram superadas em relação a tudo, tornando-o uma experiência inesquecível. Tinha um pouco de receio quanto à minha host family, mas felizmente correu tudo bem e eu adorei-a. Eles foram bastante simpáticos comigo e muito carinhosos.
Íris Barbosa, 11.º Animação Sociocultural

Esta mobilidade superou todas as minhas expectativas. Tendo esta sido a minha primeira viagem internacional (que graças ao projeto tive a oportunidade de realizar), era difícil esperar algo em concreto, já que, também, todo o projeto Erasmus+ em si era, para mim, uma novidade. Contudo, “embarquei” nesta mobilidade com a vontade de aprender o máximo que conseguisse e poder voltar para Portugal com uma perspetiva mais aberta do mundo fora do meu país. Em Budapeste, toda a equipa húngara, quer de professores quer de alunos, acolheu-nos com um espírito extraordinário. Todos eles elaboraram o programa de atividades de forma a proporcionar-nos a melhor experiência possível, e conseguiram. Aprendemos sobre os costumes e tradições do povo húngaro, conhecemos locais históricos fantásticos, e acima de tudo, criámos laços de amizade para a vida. Tudo isto fez com que todas as expectativas que qualquer um de nós tivesse fossem, sem margem de dúvida, superadas. O próprio uso da língua inglesa, como principal meio de comunicação com os demais membros do projeto, ou até mesmo o processo de acompanhamento da rotina, neste caso em específico, dos cidadãos húngaros, entram como outros tópicos de carácter positivo desta experiência. Não esquecendo, também e ainda que de uma forma mais discreta, a partilha da cultura portuguesa e da influência imprescindível que, no nosso contexto, o Colégio tem nos seus alunos, mostrando-se um estabelecimento de ensino disponível e aberto a este tipo de oportunidades e a novos métodos de ensino.
Tiago Queirós, 12.º Desporto e Dinamização da Atividade Física

As minhas expectativas iniciais relativamente a esta experiência eram altas, uma vez que recolhi informações acerca desta cidade, tanto online, como também através de contactos com pessoas que já lá tinham estado e ambos me enalteceram a beleza e a singularidade de Budapeste, o que me suscitou grande interesse. Os aspetos positivos não se cingem somente à herança cultural, uma vez que, não obstante a história e a beleza de cada monumento visitado, o verdadeiro fator diferenciador foram as pessoas que tive o privilégio de conhecer, desde a família de acolhimento, que me fez sentir em casa desde o primeiro dia, aos alunos e professores húngaros, que foram sempre simpáticos e prestáveis. Relativamente aos monumentos, todos eles tinham um grande enquadramento histórico, bem como deslumbrantes fachadas e interiores. De facto, o detalhe de cada construção fascinou- me, em particular a Basílica de Santo Estêvão. Esta mobilidade foi uma experiência deveras enriquecedora em termos culturais e pessoais, dado que me permitiu sair da minha zona de conforto e fazer novos amigos, conhecer novos locais e costumes, bem como melhorar a minha capacidade de comunicação em inglês. Não posso deixar de agradecer aos professores Catarina Costa, Rosa Maria Fonseca e Rui Canossa, que nos acompanharam e que foram incansáveis para que tudo corresse da melhor forma, aos colegas, que fizeram desta viagem uma partilha inesquecível, e também ao Colégio de São Gonçalo.
Maria João Varejão, 12.º Biotecnologia Aplicada